Dia Internacional da Mulher

Reportagem Especial:

Mulheres no Comando

Ester Mota Siqueira - única mulher na Cavalaria da PM em Marília-SP (foto: Karina Castilho)

Ester Mota Siqueira – única mulher na Cavalaria da PM em Marília-SP.

*Por Karina Castilho

Em seu dia de escala, ela chega bem cedinho no 9o Batalhão da Polícia Militar em Marília-SP. Por volta das 7h, já está caminhando e verificando tudo. Cabelos com trança, farda alinhada e com um bom humor que contagia qualquer pessoa. Assim ela começa seu trabalho. Mas naquela manhã de sábado, não apenas seus parceiros de farda a esperavam para mais um dia em que o “Proteger e Servir” deve acontecer. Ali também estavam outros parceiros: os cavalos! Ela é a única policial da Cavalaria da PM em Marília e também uma das pioneiras no interior paulista a assumir este trabalho. A Reportagem Especial de hoje, que dá início a série Mulheres no Comando, é com a guerreira Cabo Ester Mota Siqueira.

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Natural de Guaratinguetá-SP, Ester é policial há 15 anos. Serviu a Corporação na capital paulista e depois veio para o interior. Sua paixão por cavalos vem lá da infância, quando seu avô brincava com ela no sítio. Ao chegar em Marília, viu a oportunidade de servir na cavalaria. Buscou aprender mais e com o apoio da Capitão Vanessa, participou de um curso preparatório no Regimento 9 de Julho em São Paulo. Retornou para Marília e até hoje está na Cavalaria e na Tropa de Choque. “Eu já gostava muito de cavalos. Venho de uma família simples, pessoas da roça e este meio era normal para mim. Foi meu avô que despertou em mim essa paixão. Ele tinha um cavalo chamado ‘Baio’, ele encilhava e falava para eu andar. Esse contato vem desde criança”, relembra Ester.

Já de início, percebe-se que com ela a preguiça não tem lugar. É determinada, batalhadora e fala “grosso” quando  é preciso; tem autoridade na voz. Enquanto caminha pelas baias, os cavalos marcham e relincham… parecem festejar! Tudo porque ela chegou. Entre conversas e mimos, serve a ração. Depois de alimentá-los, faz uma breve pausa para tomar um cafezinho preparado no capricho pelo Cb Claudio.

Em seguida, volta a conversar com os cavalos, chama-os pelo nome e escolhe o Zezinho (o imponente “Zé”), para os primeiros cuidados do dia: verificação e faxina das ferraduras, escovação, limpeza e banho. Nada passa despercebido, até uma pequena ferida é vista e tratada. Confiança, cumplicidade e cuidados que resultam em um bom trabalho policial. “Se você não tiver um bom relacionamento, prestar atenção aos sinais do cavalo, você nunca vai ter um parceiro 100%. Se você tratar o cavalo assim: ‘Vem aqui bicho’, não vai funcionar. Eu acredito que eles têm vida, não são apenas instrumentos de trabalho. E olha que no começo não foi fácil. O Zé me mordeu. Fui encilhar e ele não gostou, virou e mordeu minhas costas. Pulei e grudei na parede feito adesivo (risos). Mas hoje é diferente. Com o tempo ele ficou meu amigo e é meu parceiro”, explica.

Depois de dar atenção ao Zé, chegou a hora de limpar as baias. Sim. Ela também faz isso. E ao questionar por quê ela faz isso e não outra pessoa, explica: “Ká, tudo isso faz parte do meu trabalho, eu não consigo simplesmente vir aqui pegar o cavalo e ir pra rua. Ser policial e cavalariço (aquele que é responsável pelo cuidado dos animais e de seu habitat) é algo natural. Fazemos tudo o que precisa ser feito, limpamos e arrumamos as baias, damos ração, inclusive batemos concreto se for necessário. Muitos querem a cavalaria, mas quando veem os bastidores, o serviço braçal, recuam. A cavalaria não é para qualquer um”. Então pergunto se ela fica constrangida por ser a única mulher ali dentro ou se teve que fazer alguma mudança para se adaptar neste ambiente masculino. A resposta franca é imediata: “Não, de jeito nenhum. E não é porque eu sou mulher que vão ‘folgar’ comigo. Eu falo normal aqui, de igual para igual. Sou respeitada e meus colegas de farda conversam comigo normalmente. Se eu tiver que fazer algum trabalho, vou fazer e pronto. Eu não precisei deixar de ser quem eu sou. Mas a cobrança mesmo vem da própria mulher. Algumas cobram feminilidade, delicadeza, mas eu não sou assim. Meu foco aqui não é estar bonita, é fazer um ótimo trabalho. Eu tenho que estar apresentável, com equipamento correto e confortável, pois se eu precisar pular um muro, entrar dentro de uma casa ou até mesmo subir no cavalo, estarei pronta para isso! Esse é o meu jeito e não é por causa da minha profissão. Como mulher, é claro que eu me arrumo, mas aqui dentro sou polícia e não modelo”.

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Enquanto conversávamos, escutamos Zezinho correndo, sem permissão, para o campo. Aos risos, ela vai atrás dele: “Zezinho, o que você fez? Vem aqui Zezinho”. E bastou um assobio com a devida autoridade para o cavalo entender quem estava no comando! Ele retornou imediatamente para o galpão. E ela, alegre como sempre, prosseguiu para finalizar o trabalho. Pouco tempo depois, chegou uma garotinha acompanhada do pai e pediu para ver os cavalos da polícia. Aquela garotinha não sabia que tinha polícia feminina na cavalaria e ficou surpresa quando soube da Ester, que prontamente atendeu ao seu pedido e contribuiu ainda mais para o sonho dela: ser policial quando crescer!

Extremamente atenciosa, Cb Ester começou a contar sobre sua escolha pela carreira militar. Sentamos próximo ao campo de futebol. O vento suave e as árvores com sombra fresca contribuíram para essa fantástica entrevista em um dia ensolarado. Ela relembrou fatos desde a infância, juventude à vida policial. “Eu trabalhei em várias coisas, mas meu avô paterno era policial militar e meus tios também, pode ser que essa influência da família tenha ajudado. Meu tio sempre falava: ‘Entra na polícia, Ester. Você vai se dar bem, você leva jeito’. Aos 19 anos, decidi prestar o concurso. Na época eu era frentista no posto de gasolina em Guaratinguetá. O marido da minha amiga policial, o Toninho, trabalhava comigo e a gente dizia que ia prestar o concurso para ela não ser policial sozinha. Aí ele prestou e passou. Depois fui eu. Em seguida, outra amiga e mais um. Todos frentistas. O dono do posto dizia: ‘Então aqui no posto eu estou formando só policiais?’ (risos). Foi um tempo tão bom. Até hoje somos amigos e trabalhamos na cavalaria, mas em cidades diferentes”, conta Ester.

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E quanto as lembranças da carreira? Pergunto. Algo positivo? “Sim. Eu ainda estava em São Paulo e ia ter jogo no Morumbi. Eu era do 2o BP e o policiamento de choque em evento, normalmente fica desarmado – exceto Sargento e tal, e lá tinha uma fila para entrar que a gente chamava de ‘cavalo louco’. Nós fazíamos uma revista geral e depois as pessoas passavam pela catraca. De repente veio a torcida da Independente (São Paulo), e naquela loucura alguém empurrou o Sargento, ele desequilibrou, porém, retornou à posição. Mas eu vi o cara que empurrou e pensei: ‘Foi aquele cara’. Rapaz! Fiquei com um ódio daquilo. O moço correu e pulou a catraca, fui atrás e pulei igual. Fiquei frente a frente com o cara, falei com ele e o segurei até que meus parceiros chegassem. O Sargento olhou para mim e disse: ‘Ester nunca imaginei na minha vida que você ia pular a catraca e pegar ele. Eu poderia dizer que qualquer um iria pegá-lo, menos você’ (risos). E isso marcou nosso pelotão na época. Foi muito legal. Agora manda eu fazer de novo”, diz sorrindo.

No período da tarde, Ester ainda teve tempo para jogar futebol e no final do dia, reforçou a equipe de policiais que foram ao Estádio do MAC (Marília Atlético Clube), para garantir a segurança dos torcedores. “Hoje tem jogo. Sempre é escalado uma polícia feminina para fazer a revista geral em mulheres. Não pode entrar com garrafa, latinha, guarda chuva ou qualquer objeto que represente perigo ou possa ser usado como arma. Antes de cada jogo, todos os torcedores são revistados e o Estádio também. Em termos de segurança, por parte da polícia, você pode ir com sua família tranquilamente”.

(Foto: Arquivo pessoal/Ester Mota)

(Foto: Arquivo pessoal/Ester Mota)

Depois de adquirir experiência tanto na cavalaria quanto no policiamento de rua, Ester já fez a sua escolha. “Prefiro a cavalaria. Eu gosto demais. O homem no cavalo é psicologicamente mais oponente. Se uma ação exige uma resposta mais ofensiva por parte da PM, eles entram em cena. Quando a cavalaria é acionada, significa que este é o último recurso do policiamento, pois um homem no cavalo equivale a 5 policiais no chão. O policial com o cavalo está apto para decidir a situação. Por isso é fundamental o treinamento e conhecer o animal, porque em situações extremas se você precisar do cavalo para uma ação mais eficaz, ele vai responder ao seu comando. Nós também fazemos o patrulhamento ostensivo e preventivo, estamos na rua, de olho em tudo, e se suspeitamos de alguma coisa, vamos abordar normalmente. Além disso, a gente tem a oportunidade de se relacionar melhor com a sociedade. Quando as crianças veem o cavalo da PM, elas já correm e pedem para tocar, passam a mãozinha no cavalo, conversam. É gratificante”.

Ela ainda acrescenta: “Penso que a Polícia Militar foi criada para um bem comum. Somos chamados em horas difíceis e para ajudar a resolver uma situação, fazer o que for preciso e combater o crime. Estamos aqui para garantir o Estado Democrático, o seu direito de ir e vir. Infelizmente, como em toda profissão, você tem o mal exemplo. Mas quando você faz o bem porque quer, porque vestiu a farda como segunda pele, você até morre no lugar de alguém, sem pensar! Você dá a vida por alguém que nem conhece. Isso é o que faz o bom policial: amar a vida”.

(foto: Arquivo pessoal). Ester com o marido, Sargento Rodrigo: companherismo, amor e apoio.

(foto: Arquivo pessoal). Ester com o marido, Sargento Rodrigo: companheirismo, amor e apoio.

Mas engana-se quem pensa que ela é apenas policial. Ester é mãe dedicada e tem em seu esposo, Sargento Rodrigo, o amor e total apoio para ser bem-sucedida e realizada em seu trabalho. “Eu curto muito a minha família, gosto de ficar em casa, eles são meu porto seguro. Mas quando posso, gosto de correr, ir à academia, conversar, ver filmes e ler (amo livros e tenho muitos). E claro, gosto de música. Lá em casa somos Rock ‘N’ Roll. E quanto a comida, eu gosto da comida dos outros (risos). Amo comida caseira e também comida japonesa. Nossa! Eu bato forte, como bem mesmo. Não ligo pra doce, mas sou viciada em chocolate. Se eu tiver um chocolatinho aqui, saio de fininho e como escondido de você” (risos).

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Ao comentar sobre o Dia Internacional da Mulher, pergunto se ela sente que ainda precisa provar alguma coisa. E novamente a resposta é sincera: “Não. O que prova que eu sou mulher é a minha certidão, não é o meu batom. Não sou do movimento feminista – nem a favor, nem contra. Mulher não tem que provar nada. Antigamente a mulher tinha um papel X, hoje não. Só uma ressalva. Outro dia, atendendo uma ocorrência, duas mulheres chamaram a PM porque um homem, provavelmente namorado, entrou na casa e bateu na menina. Chegamos, colocamos o rapaz para fora e resolvemos a situação. Mas a mãe olhou para filha e disse: ‘Se o seu pai estivesse aqui, se tivesse homem dentro de casa isso não acontecia’. Eu ouvi e disse: ‘Espera aí, agora a senhora falou comigo. Não é porque não tem homem dentro da sua casa que isso está acontecendo. É porque vocês não têm atitude. Vocês são duas mulheres e se vocês tiverem atitude, nenhum homem vai entrar aqui e faltar com respeito na sua casa’. Independente do sexo, se é homem ou mulher, eu olho a atitude do ser humano, se ele tem caráter ou não. E a mulher não tem que se esconder nem se aproveitar de uma situação. Tem que ter atitude”.

E quanto ao futuro? Pergunto. “Hoje eu não penso em nada lá longe, no futuro. Vivo um dia de cada vez. As pessoas perguntam se eu tenho sonhos e eu digo: ‘Eu só quero que o dia termine bem’. ”

(Foto: Arquivo pessoal/Ester Mota)

(Foto: Arquivo pessoal/Ester Mota)

Neste Dia Internacional da Mulher, homenagear alguém como a Ester, é fazer o mesmo por todas as policiais que lutam diariamente para assegurar o nosso direito de ir e vir. É dia de prestar continência a esta e a tantas outras guerreiras que carregam em si o amor pela família e a paixão pela carreira. Quando você ama é capaz de dar a vida, e isso também é proteger e servir.

Parabéns, Mulheres Militares!

 

*Agradeço ao 9o Batalhão da Polícia Militar de Marília-SP,  em especial ao Ten.Coronel Marcelo Martins, Capitão Vanessa e Cb Ester Mota Siqueira, por permitir e conceder esta entrevista. Estendo meus agradecimentos a cada soldado, Cabo, Sargento e Tenente que tive o privilégio de conhecer durante as 12 horas em que estive ao lado da Cb Ester fazendo esta entrevista. Obrigada!

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