“O amor invadiu a nossa casa”

Oi gente bonita!

Quero apresentar a vocês uma História de Vida muito especial. Tão logo soube do testemunho da Ana Gabriela, sobre o processo de adoção de sua filha, pensei em compartilhar com meus leitores. E deu certo! É gratificante aprender um pouquinho mais sobre o que realmente significa ser mãe. Boa leitura, meus amigos!

Gabriela e Manu, amor que excede o entendimento.  
(Foto by Lico Santos)

 

Por Ana Gabriela Rocha

Sempre soube que seria mãe. Mas, curiosamente, nunca me imaginei grávida. Lógico que eu gostaria de engravidar, mas nos meus sonhos eu nunca estava grávida. Sempre me imaginei com filhos no meu colo. Só me toquei disso quando a adoção ficou clara para mim. Quando realmente optamos por essa forma de filiação.

Meu primeiro contato com crianças adotadas foi na adolescência quando conheci uma família formada por laços afetivos. Pai, mãe e dois filhos. Eu me encantava com o amor que havia entre eles. E ali naquela família, todos tinham o mesmo tratamento. Avós, tios, primos, todos amavam aqueles meninos igualmente. Essa experiência ficou guardada no meu coração anos a fio. Nem sei se eles sabem o quanto me influenciaram.

Conheci meu marido em 2004. Namoramos por 2 anos e nos casamos em novembro de 2006. Nunca me preveni e até cheguei a engravidar uma vez, mas perdi o bebê com 6 semanas. Sofri muito. Muito mesmo. E depois de muito pensar, muito ponderar, decidimos que faríamos tudo ao nosso alcance. Exames, vitaminas, suplementos… Mas, eu não queria fazer inseminação e nem fertilização. Justamente porque eu queria ser mãe, mas não necessariamente queria engravidar.

Em 2010 meu marido atendeu aos meus apelos e me presenteou com uma cachorrinha. Dalila foi adotada em Fevereiro daquele ano e mal sabia eu o quanto Dalila nos prepararia para o bombardeio de preconceito que sofremos hoje. Isso porque Dalila é uma pit bull e já ouvimos as maiores barbaridades com relação à ela. E ouvimos também barbaridades com relação à adoção da nossa filha. Mas, isso é papo para outro post!

Enfim, aconteceu o diálogo que mudaria nossas vidas. Era uma tarde de sábado. Eu sentada no sofá lendo jornal e meu marido no laptop, sentado à mesa de jantar. Perguntei:

– O que você acha de adotarmos uma criança?

– Você acha que não vai engravidar?

– Independente disso. Já que pensamos em dois filhos, poderia ser um adotivo e um biológico. Respondi.

– Ah, então se informa como devemos proceder.

Assim fizemos. Fomos até a vara da infância e nos informamos sobre o processo.

 Adoção

Para nos habilitarmos levamos quase 1 ano. São reuniões obrigatórias, visitas à psicóloga e assistente social e uma lista enorme de documentos necessários para anexar ao processo. E tivemos que definir um perfil de criança que aceitaríamos. Como isso é difícil! Parece que estamos escolhendo um produto. Escolhemos desde a idade e a raça até doenças que aceitaríamos e lugares do Brasil em que poderíamos ir.

Fomos habilitados em 22 de outubro de 2012.

Normalmente, os habilitandos sentam e esperam seus telefones tocarem. No entanto, definitivamente, esse não é o meu perfil. Então passei a militar na área. Participei, mais do que o exigido, dos grupos de apoio à adoção, fiz reuniões com o ministério público questionando algumas inconsistências no processo de adoção, dei entrevista para televisão, dei entrevista para jornal, enfim, coloquei a boca no mundo.

Durante esse período li muito. Mergulhei de corpo e alma no mundo da adoção. Ouvi histórias incríveis e histórias tristes também. E todo esse conhecimento foi me preparando para o dia em que o meu telefone tocou. E ele tocou.

No dia 28 de maio de 2014, às 18h aproximadamente, a assistente social Patrícia me ligou. Ela já foi logo perguntando:

– Você está mudando de emprego? Está mudando de apartamento? Está com reforma em casa? Viagem programada?

Diante de todas as minhas negativas, ela informou que nós éramos os quintos da fila a serem contactados e que todos antes de nós disseram não e fez uma última pergunta:

– Pode receber um bebê imediatamente?

– IMEDIATAMENTE?

Fiquei tonta. Nosso perfil era de 0 a 4 anos, qualquer raça, qualquer sexo, em qualquer lugar do Brasil. Eu já sabia que só recebemos imediatamente crianças menores de 1 ano. As maiores dessa idade precisam de estágio de convivência.

E aí ela me disse:

– É uma menina, ela tem 2 meses, é negra e saudável.

Ela nos orientou sobre como proceder e que devíamos ir no dia seguinte conhecê-la. Nós fomos. Chegamos lá e aguardamos em uma salinha enquanto foram buscar a bebê.

Ela era encantadora. Fofa demais. Dois olhinhos de jabuticaba e uma boquinha de coração. Mas, não ouvi sinos tocando. Não explodi de amor. Não naquele momento. Era uma bebê linda e, sim, eu poderia ser sua mãe.

Quando saímos do abrigo, tínhamos que ligar para assistente social dando o nosso aval para ela dar continuidade no processo.

Perguntei ao meu marido:

– E aí?

E ele respondeu:

Não sei se eu quero isso pra mim.

– Como assim? Fiquei incrédula. Não pode ser. Esse projeto sempre foi nosso. E você nunca disse que estava desistindo dele.

Liguei para a assistente social e perguntei se teríamos tempo para dar a resposta. Ela disse que teríamos 40 minutos para decidir.

Nunca orei tanto na minha vida. Enquanto meu marido ligava para terapeuta dele, enquanto ele chorava copiosamente do meu lado, sem falar nada, eu orava. Vi meu casamento acabar ali. Eu não ia abrir mão desse sonho de ser mãe. Mas eu queria fazer isso com ele, com meu companheiro, meu parceiro, meu amigo e meu amor. Então ele falou:

– Liga pra Patrícia e diga que ficaremos com a bebê.

Fiz isso imediatamente. Sem nem pestanejar.

O dia a dia

No dia seguinte, fomos à vara buscar a guarda e o termo de desacolhimento, para tirar nossa filha do abrigo. Meu marido ainda não estava seguro. Novamente discutimos. Mas, por fim ele assinou a guarda. Foi trabalhar e eu fui com meu pai buscar nossa bebê. Entreguei a roupinha, que foi da minha sobrinha, para as cuidadoras e elas trouxeram a bebê mais fofa que já se teve notícia!

Chegamos em casa e o que aconteceu aqui não dá para medir, não dá para descrever, só dá para sentir. Foi uma onda de amor que invadiu a nossa casa de uma forma arrebatadora. A cada dia nossa Manoela foi conquistando a mim, aos meus pais, minha sogra, tios, tias, primos e primas. Mas o coração mais encantado é o do papai. Eles têm uma conexão que é inexplicável. Ela fica hipnotizada quando vê o pai. E ele, ah, ele… Aquele coração em dúvida está totalmente encantado, apaixonado, bobo até.

Saí de licença maternidade no dia 14 de Julho de 2014. Um mês e meio depois que Manoela chegou. Primeiro porque a empresa não estava entendo que eu tinha direito à licença. E eu tinha. Direito previsto na CLT, meu regime de trabalho na época. Segundo porque eu queria deixar tudo organizado, redondinho, para não deixar furo com meus empregadores.

Quando saí de licença, fui ao céu. Passar o dia com minha princesa, criar a nossa conexão, curtir cada gracinha não tem preço. Foi realmente maravilhoso.

Em setembro recebi a notícia de que seria desligada da empresa. O que aconteceu na volta da minha licença. Infelizmente a lei não garante estabilidade para licenças maternidade por adoção. Eu poderia ter aguardado o término do processo de adoção, mas daí a licença já não teria sentido. Manoela precisava de mim naquele momento. Era adaptação dela na nossa família. E eu não me arrependo. Nem por um segundo. Minha filha precisava de mim. Precisava do meu colo, do meu chamego.

Esse mês faz um ano que nossa família se completou. E nesse período vivi experiências incríveis e também momentos de completo desespero. Saí do emprego que eu adorava, vi meu padrão de vida despencar e desenvolvi doenças relacionadas ao estresse. Mas, cada vez que eu vejo o sorriso da minha filha, cada braço estendido, cada corridinha na minha direção, meu coração transborda de felicidade.

Amanhã retorno ao mercado de trabalho e no final das contas, estou grata por ter me dedicado de corpo e alma, durante 1 ano, à pessoa mais importante da minha vida.

Durante todo o tempo de espera orei para que Deus guardasse minha filha, ou filho. Para que nunca sentisse frio, fome ou passasse alguma necessidade. E que sempre tivesse um colinho onde se aninhar. E Deus é fiel. Minha filha nunca passou nenhuma privação. Sempre foi muito bem cuidada no abrigo e por isso eu serei grata por toda minha vida.

Dizem que a adoção é a forma de corrigir um delivery errado da cegonha. Eu concordo com isso. Eu não poderia ter outra filha, e Manoela não poderia ter outra mãe ou outro pai. É como se ela sempre estivesse vivido aqui. Não imagino minha vida sem minha bebê. Ela é esperta, se desenvolve superbem, é simpática e muito amorosa. “Minha filha não nasceu de mim, mas certamente nasceu para mim!”

 

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